Desejo

“Não sinto nada mais ou menos, ou eu gosto ou não gosto. Não sei sentir em doses homeopáticas. Preciso e gosto de intensidade, mesmo que ela seja ilusória e se não for assim, prefiro que não seja.
Não me apetece viver histórias medíocres, paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar. Não sei brincar e ser café com leite. Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente pra me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas estórias caso não possa vivê-las. Porque eu acho sempre muitas coisas – porque tenho uma mente fértil e delirante – e porque posso achar errado – e ter que me desculpar – e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia.
Quero grandes histórias e estórias; quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer, extrair o máximo do meu prazer e me fazer crêr que é para sempre quando eu digo convicto que ‘nada é para sempre’.”

Gabriel García Márquez

Homenagem.

- Daremos início agora ao quadro ‘Minha vida dá um filma indiano’, com a ilustre presença do sr Aroldo. Boa tarde, sr Aroldo.
- Boa tarde.
- Diga-nos, senhor, qual é a história da sua vida que dá um filme indiano?
- Bom, é um pouco grande a história, peço a paciência de vocês.
- Fique à vontade, sr Aroldo.
- Foi um dia em que eu saí do trabalho atrasado pra um compromisso e meu carro deu problema logo em um trecho onde não existe nada por perto, só uma enorme floresta. Tentei ligar pra casa, mas meu celular não pegava. Então resolvi caminhar pela floresta para ver se encontrava algo. Encontrei 3 lenhadores desarvorados que logo decidiram me molestar. E enquanto eles me molestavam, fiquei pensando na vida. Porque veja bem, eram cerca de 10:30 e meu compromisso era ás 11:00.
- É sempre assim, quanto mais apressados estamos, mais lento tudo parece correr.
- Verdade absoluta, isso. Bom, logo que eles acabaram, nos despedimos e continuei andando. Como estava com pressa, não prestei atenção no caminho e acabei pisando em uma armadilha para ursos. Perdi a perna esquerda, e continuei capengando. Logo mais adiante, deparei-me com um urso, que, por sentir-se solitário, molestou-me também.
- E o senhor sentiu raiva, então?
- Não! O único problema do pobre urso era estar sozinho. Ele na verdade foi muito meigo e gentil.
- Quando lidamos com seres educados, a história é outra.
- Gostaria até de fazer um apelo, aproveitando esse espaço. Urso, gostaria de lhe pedir para fazer os exames necessários, pois um dos lenhadores não usou preservativo e desconfio dele.
- E fica então esse bonito apelo. Mas continue sua história, por favor.
- Depois de tanto andar, consegui chegar em casa. Mas me surpreendi com minha mulher na cama com o leiteiro. Gritei logo: ‘Josefa, estou com a perna machucada, trate de fazer-me um curativo!’. Estava lá sentado, recebendo tratamento quando me entra meu filho, único, e diz que se inscreveu nos escoteiros. Pera lá. Meu dia estava indo bem, e esse moleque vem me dizer uma coisa dessas?? Escoteiro?? Perdi a paciência, dei-lhe uns bons tabefes para aprender a ser homem.
- …
- …
- Bonita história, sr Aroldo. Mas… como pode ser transformada em filme indiano?
- Veja bem, quando os lenhadores foram me molestar, adivinha como eles procederam?? Fizeram fila indiana!
- …
- …
- Obrigada pela presença, sr Aroldo. Continuamos com a programação normal.

A Mulher de Rosa.

Tá chegando!

Teatro nosso de cada dia.

Estreia é sempre uma coisa engraçada. Todos nervosos, cada um demonstrando de uma maneira. Rolam patadas, danças, foras, pulos, cantoria, de tudo um pouco. E a hora em que o espetáculo é anunciado, aquela tensão de ‘tudo tem que dar certo’. Merdaaa! Nos instantes finais todos soltam o ar, que parecia preso desde o início, sorrisos abrem com facilidade. E é no momento final, nos agradecimentos, que a emoção é maior. Tarefa cumprida. Abraços são dados tão apertados que sufocam. Lágrimas rolam. Meses de ensaios, produção, esporros são comemorados. Trabalho árduo, o nosso, para quem pensa o contrário.

Obrigada, Teatrama, por abrir as portas, me aceitar e crescer comigo. Merda pra nós, sempre.

*

Momento marcante da estreia: bêbado atrás do ‘palco’ gritando para uma criança que estava nos assistindo: ‘Owww, Aninha/Nina, depois vem aqui que quero falar com você!’ como se não estivesse acontecendo nada na frente dele. A menina, coitada, não sabia onde enfiar a cara. O elenco todo olhou. E pra voltar pra cena?? Teatro de rua é o que há!

Novidades rapidex.

Dia 17 de abril estreia o novo espetáculo do Grupo Teatrama , ‘A Megera Domada’. Teatro de rua, a peça estará em cartaz até fim de maio, andando pela cidade de Araruama, cada dia em um ponto novo. Com direção, figurino, maquiagem e atores impecáveis, tenho certeza que será sucesso absoluto. Orgulho é o que sinto por fazer parte dessa família e vê-la caminhar cada vez mais. Amo todos.

Duas semanas depois da estreia d’A Megera, entra em cartaz ‘A Mulher de Rosa’, outra super comédia ansiosamente esperada. Logo, logo escrevo mais sobre.

O Jardim

Achou que seria um ótimo passatempo criar um jardim. Começou com flores conhecidas, os mais belos exemplares. De hobby, virou amor, na sua concepção. Impossível não amar todas aquelas rosas, orquídeas, lírios, pensava. Passou a ser obsessão. Passava dias e noites cuidando das suas paixões.

Até que um dia, nasceu uma flor completamente desconhecida. Nunca tinha visto algo semelhante. E era tão bela, tão cheirosa! Pesquisou incansavelmente e descobriu que aquela era única no mundo. A alegria explodiu pelos poros. Não cabia em si de contentamento. Ninguém, em lugar nenhum teria uma flor como aquela! Pertencia a ele como nunca nada tinha pertencido antes. Nem percebia mais as outras. Eram simplesmente comuns, não podia perder tempo com a simplicidade, tendo em seu jardim algo tão raro.

Mas, então, vieram pensamentos. Já não bastava só ele saber daquele pequeno milagre. A notícia de sua imensa sorte deveria ser espalhada. Tratou disso rapidamente, anunciando aos quatro ventos sua descoberta. Seu jardim virou passarela de curiosos. Fotos eram batidas, e ele todo orgulhoso em suas poses, ao lado de sua posse. Resolveu cobrar pela entrada. Já que tantos passariam por ali, nada mais justo, pensou. Começou a dar entrevistas, e sua vida foi tomada de eventos. Nunca tinha ganho tanto dinheiro, e adorou a fama repentina. O jardim, com sua magnífica flor, foi repentinamente esquecido. Abandonada, a rara espécie não tinha como se defender. Foi atacada, comida e pisoteada.

Quando percebeu o que tinha feito, já era tarde demais. E não adiantou chorar, gritar que fez tudo por amor, que precisavam do dinheiro para sobreviverem. A linda flor sabia, e tentou transmitir em seus últimos suspiros, que necessitava mesmo era do mais puro e verdadeiro amor.

Perfil.

Gosto de me sentir livre, de frio na barriga, de rir até chorar, de chorar até relaxar, de ter amigos perto de mim, de errar para aprender, de sentir saudade para rever, de ter amores platônicos, de olhar as estrelas, de gritar, de ser criança, de ser imoral, de ser anormal, de receber aplausos, de ouvir risos, de amar sem medo, de reparar em estranhos, de sentir o vento, de ver o pôr-do-sol, de me perder para me achar, de não ferir ninguém, de começar e terminar, de comer, de cerveja, de sentir prazer, de nadar, de ousar, de gritar para acalmar, de ter um dia de santa, de ter um dia de puta, de não dar satisfação, de chocar, de escrever, de sofrer para amadurecer, de ser louca, de ler, de fotografar, de tocar e ser tocada, de abraços de urso, de beijos estalados, de chicletes e balas, de ser despojada, de ser ‘boca suja’, de ser eclética, de mudar de opinião, de melhorar, de minissaia, de bar, de sinuca, de jogar, de futebol, de morder, de circo, de escandalizar, de noite, de iluminar, de ajudar, de perder o senso da realidade, de ser essencial, de ser insaciável, de acumular memórias e afetos, de me contar inteiramente, de ser correspondida, de sonhar, de ser extrovertida, de poder suportar as quedas, de não me arrepender, de aproveitar as chances, de dar e receber, de ser indiferente ao que os outros pensam, de cinema, de museu, de ouvir música, de ser inesquecível, de não ter o coração vazado, de ser contraditória, de me sentir viva…